quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Impressões de Leitura: Mil Tsurus

Sinopse:

Kikuji Mitani é um jovem que, durante uma cerimônia do chá, reencontra duas antigas amantes de seu falecido pai, Chikako Kurimoto e a viúva Ota, e de repente se vê profundamente envolvido com elas. Enquanto Chikako tenta arranjar um casamento para Kikuji, este inicia um inesperado romance com a senhora Ota, que por sua vez tem uma filha chamada Fumiko, de quem Kikuji também irá se aproximar. Mas há ainda Yukiko, a delicada jovem pretendente a se casar com Kikuji, personagem que representa serenidade num ambiente repleto de ressentimentos e intrigas. Não é por acaso que a moça é descrita usando um lenço de seda ilustrado com tsurus, ave que simboliza nobreza e felicidade na tradição japonesa.



Este post, na verdade, não é uma resenha, já que está mais relacionado à minha experiência de leitura de Mil Tsurus, de Yasunari Kawabata, e pode sim conter spoilers.

Tive um sentimento muito dúbio durante toda a minha leitura de Mil Tsurus. De início, estranhei bastante a narrativa, que é bem fragmentada e objetiva, sem grandes floreios. Assim, mesmo os acontecimentos mais sensíveis são contados de uma maneira bastante crua, mas sem indelicadeza. O que eu não sei, na verdade, se seria um reflexo da cultura oriental.

A narrativa se dá no período seguinte à Segunda Guerra Mundial, mostrando um Japão que passa por um processo de ocidentalização. Para uma cultura já tão antiga, este foi um momento bastante trágico. Kawabata constrói em suas palavras esse ambiente tenso, mas sem deixar de lado as tradições japonesas, como a cerimônia do chá. Boa parte da história se desenvolve durante essas cerimônias, que deveriam ser um momento de tranquilidade, mas acabam sendo desconfortáveis para o jovem Mitani. 

Os acontecimentos passados durante as cerimônias do chá devem ser bem mais agradáveis para quem conhece melhor do que eu a cerâmica japonesa, já que o autor descreve muito bem e demonstra a importância de cada um dos artefatos utilizados nesse tipo de tradição. Como não conheço nada de cerâmica, muito menos japonesa, nesses momentos senti como se eu não estivesse sabendo apreciar o que Kawabata estava me oferecendo - e recorrer às notas de rodapé quebra muito o ritmo da leitura.
 
Logo no começo do livro, o jovem Mitani se lembra de uma deformidade que a mestre do chá Chikako, tem em um de seus seios. Para Kikuji, essa deve ser uma lembrança bastante dolorida, já que quando ele viu o seio de Chikako ainda era muito pequeno e foi em uma ocasião em que seu pai traía a sua mãe com a mestre do chá. 

A partir dessa lembrança de Kikuji, são desenroladas várias expressões do machismo oriental (não sei se da época ou se ainda atual, tentei conversar com pessoas que moraram no Japão, mas não souberam me responder com certeza) e, principalmente, da rivalidade entre as mulheres. A mestre Chikako foi amante do pai de Kikuji e, quando descoberta pelo menino, assumiu uma personalidade mais assexuada, mas não se afastou da família Mitani, o que não impediu que o senhor Mitani se envolvesse com a viúva Ota. 

Com o envolvimento entre o senhor Mitani e a senhora Ota, o relacionamento entre ele a mestre de chá realmente chega ao fim, o que abre espaço para uma eterna culpabilização da senhora Ota. Apesar de ter sido amante do senhor Mitani, também, Chikako condena o relacionamento dele com a senhora Ota o tempo todo, sem perder a oportunidade de tratá-la como uma pessoa inferior.

Cansada de tanta condenação, a senhora Ota acaba se suicidando (lembrando que esta é a minha interpretação), o que nos leva a vários olhares orientais muito poéticos sobre a morte e o respeito pelo morto. Pensando em correlação à declaração que o próprio autor deu sobre o suicídio, o olhar do leitor passa a ser direcionado, especialmente para a seguinte frase: "Por mais que as pessoas a condenassem, morrer não era a solução. Para nada. Morrer é apenas uma forma de rejeitar a compreensão dos outros."

Feitas todas essas observações bastante detalhadas, devo dar agora o meu veredito: Mil Tsurus é um livro muito bonito e poético. Mesmo que este não seja um livro lá muito instigante, a sua leitura vale muito a pena pela ambientação que Kawabata é capaz de criar e pelo próprio contato com uma cultura tão diferente da nossa, ainda que essas diferenças todas possam vir a dificultar um pouco o entendimento de algumas coisas, acredito que isso não afete a real compreensão de Mil Tsurus. 

Além disso, a edição da Estação Liberdade tem apenas 171 páginas, sendo que entre uma parte e outra (são cinco) há a separação de uma página inteira. A fonte o espaçamento também é bem grande. Essa combinação toda faz com que Mil Tsurus seja uma excelente leitura de um único dia.

2 comentários:

  1. Que legal, não conhecia esse livro, mas parece interessante! Vou anotar a dica, gosto muito dessa editora!

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  2. Sinceramente, não imagino um livro japonês como sendo diferente disso (o que é um grande erro, claro, pura ignorância): poético, introspectivo, com dramas familiares, suicídio e tradições. Não sei se tem fundamento dizer isso, mas acho que esse é o tipo de literatura japonesa que mais parece chegar até nós. Estou lendo agora 1Q84, a primeira obra de um autor japonês com a qual eu tenho contato. Adoro o fato de que, assim, a gente acaba sabendo mais sobre uma cultura completamente diferente da nossa, com costumes bem distintos dos ocidentais - mesmo que isso faça a gente ficar meio perdido na história às vezes (e também lamento que, pela escrita deles seguir outra lógica, com certeza a tradução acabe diferindo bastante do original).
    Adorei a capa (eu gosto desse estilo de ilustração, que deve ter um nome e eu não sei qual é) e achei esse Kikuji um jovem bem... requisitado. hehe E não sei se na literatura do ocidente nós veríamos uma situação como essa que a mulher, depois de descoberta como amante do pai do garoto, meio que se tornou assexuada.
    Ah, e "...a senhora Ota acaba se suicidando (lembrando que esta é a minha interpretação)" > sua interpretação?? comassim! Me deixou curiosíssimo (isso é um publieditorial? hahaha), vou mesmo me programar pra ler esse livro. kkk
    Beijo

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